sábado, 14 de fevereiro de 2026

Happening. Allan Poe & Alessandro: A Cidade Vista A Partir De Suas Árvores.

 


Quero um conto bem desenvolvido, no qual Leonore, personagem do poema O Corvo, de Poe, morre em acidente de carro, em uma estrada, esmagada por árvore caindo sobre seu automóvel. Esse seria o primeiro quadro, ato. O segundo é o próprio poema do Poe, com a sua alma sendo oprimida pela sombra da negação, o corvo. Na terceira parte, o personagem se reinventa e vira youtuber, especialista em plantio seguro de árvores. Claro. Vou desenvolver o conto em três atos, como você propôs, mantendo uma atmosfera poética e simbólica, sem recorrer a descrições gráficas.


I – A Estrada

A estrada era dessas que atravessam o mundo
sem pedir licença — duas faixas estreitas, ladeadas por eucaliptos altos e
cansados do próprio peso. O céu estava indeciso entre chuva e silêncio.

Leonore dirigia sozinha.

Não fugia de nada. Não buscava nada. Apenas
seguia — como quem atravessa uma frase longa demais e ainda não encontrou o
ponto final.

O vento começou como um aviso, uma
respiração mais forte entre as folhas. O rádio perdeu o sinal. O ar tornou-se
elétrico. Um estalo seco partiu da margem da estrada — madeira cedendo à
própria exaustão.

A árvore tombou com a lentidão solene das
coisas inevitáveis.

Não houve tempo para cálculo, apenas um
instante de reconhecimento — como se Leonore tivesse percebido que a vida,
afinal, é sempre uma conversa interrompida. O impacto foi abrupto, definitivo.
A lataria cedeu sob o peso do tronco antigo. Depois, silêncio.

A chuva veio tarde demais.

Quando os faróis se apagaram, a estrada
permaneceu indiferente. As árvores voltaram à sua postura vertical. O vento,
satisfeito, cessou.

E algo — leve, quase imperceptível — se
desprendeu daquilo que antes respirava.

II – A Câmara e o Corvo

O quarto é antigo. Cortinas pesadas.
Meia-noite que não passa.

Ele — o narrador — está só. Livros
empilhados como muralhas contra o vazio. Repete o nome dela como quem tenta
costurar o rasgo do mundo.

Leonore.

Mas a palavra já não responde.

O bater na janela não é tempestade. É
presença.

O corvo entra não como ave, mas como
sentença. Instala-se acima da porta, sombra sobre sombra. Não ameaça. Não
grita. Apenas existe.

E diz:

— Nunca mais.

A alma de Leonore, suspensa entre o que foi
e o que não pode mais ser, sente o peso daquela negação. Não é dor física. É
uma gravidade metafísica. A sombra do corvo não é escura por cor, mas por
significado. Ela representa a recusa do retorno. A impossibilidade do recomeço
igual.

O narrador pergunta. Suplica. Interpreta
sinais onde não há sinais. O corvo responde sempre igual.

Nunca mais.

Mas talvez a ave não seja apenas negação.
Talvez seja espelho.

Porque a sombra que oprime também delimita
forma. O “nunca” desenha contornos no caos. O luto é uma moldura severa, mas é
moldura.

Leonore compreende — não como pensamento,
mas como expansão: o fim não é argumento final, é deslocamento.

O corvo permanece. A palavra permanece.

Mas algo muda.

A sombra deixa de ser prisão e torna-se
limite — e limites podem ser atravessados.

III – Plantar de Novo

O canal começa de forma simples.

Câmera improvisada. Fundo neutro. Um homem
que aprendeu a olhar para árvores com outra gravidade.

“Bem-vindos ao 'Plantio E Manejo Seguro De Árvores'",
ele diz, ajustando o foco. A voz já não treme como no quarto antigo. Há uma
serenidade trabalhada, construída com insistência.

Ele explica sobre raízes superficiais. Sobre
a importância da distância correta entre árvores e vias públicas. Fala de
ventos predominantes, de solo mal compactado, de espécies inadequadas para
áreas urbanas.

Mostra diagramas. Entrevista engenheiros
florestais. Conversa com moradores que tiveram prejuízos evitáveis. Ensina como
plantar não apenas para crescer, mas para durar com segurança.

Em um dos vídeos, segura uma muda jovem e
diz:

“Plantar é um gesto de futuro. Mas plantar
sem responsabilidade é descuido disfarçado de esperança.”

O canal cresce. Pessoas compartilham
histórias. Prefeituras entram em contato. Escolas convidam para palestras. A
tragédia deixa de ser apenas memória e se transforma em fundamento.

Ele nunca fala explicitamente do acidente.

Mas quando o vento sopra mais forte durante
as gravações externas, ele pausa. Respira. Observa as copas.

Não com medo.

Com respeito.

À noite, às vezes, sonha com um quarto
escuro e uma ave imóvel acima da porta.

No sonho, o corvo já não diz “Nunca mais”.

Apenas observa.

E talvez — só talvez — o silêncio seja uma
nova palavra








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