A Oração (Prece, Reza) No Teatro.
Quem inventou a oração, a prece, a reza?
A oração não foi “inventada” por uma única pessoa. Ela surgiu de forma independente em várias culturas antigas como uma expressão espontânea do ser humano diante do mistério, do medo, da gratidão e do desejo de proteção.
Desde que há registros históricos, há preces.
Nas civilizações antigas
Na Mesopotâmia, já existiam hinos e súplicas dirigidas aos deuses, escritos em tabuletas de argila.
No Egito antigo, encontramos orações nos Textos das Pirâmides e no Livro dos Mortos.
Na Índia védica, os hinos do Rigveda (c. 1500 a.C.) são formas estruturadas de prece.
No Israel antigo, muitos salmos da Bíblia são orações poéticas.
Na Grécia antiga, havia invocações formais aos deuses do panteão olímpico.
Antes mesmo da escrita
Antropólogos acreditam que práticas semelhantes à oração já existiam em sociedades pré-históricas — provavelmente como invocações, cantos ou rituais ligados à caça, à fertilidade e à morte.
Então, quem “inventou”?
Provavelmente ninguém em particular. A oração parece ter nascido junto com a consciência simbólica humana — quando o ser humano começou a perguntar:
Quem controla a chuva?
O que acontece após a morte?
Como pedir proteção?
Como agradecer?
Em resumo:
A oração é tão antiga quanto a espiritualidade humana. Ela não tem um inventor — é uma criação coletiva da humanidade.
Claro — dá pra aprofundar e falar de pesquisadores que estudaram a origem da oração/prece desde perspectivas antropológicas, psicológicas e religiosas. Vou citar quem são, o que pensam e por quê.
🧠 1. Mircea Eliade (1907–1986) — Historiador das religiões
Quem foi: Um dos maiores estudiosos da religião do século XX.
O que ele disse: As orações nas culturas primitivas não são simplesmente pedidos; são atos de encontro com o sagrado. Para Eliade, a religião é a maneira como o humano experimenta o transcendente.
Importante: Ele mostra que rituais, símbolos e orações são formas humanas de dar sentido à vida — não meros instrumentos utilitários.
📌 Livro importante: O Sagrado e o Profano
🗿 2. Claude Lévi-Strauss (1908–2009) — Antropólogo estruturalista
Quem foi: Um dos fundadores da antropologia moderna.
O que ele disse: A oração e o mito são formas de organizar a experiência humana. Não são “explicações primitivas” de fenômenos, mas sim maneiras estruturadas de lidar com o mundo social e natural.
Importante: Para Lévi-Strauss, rezar é tão humano quanto falar ou criar arte — uma estrutura simbólica para superar incertezas.
🧬 3. Pascal Boyer (nasc. 1957) — Psicólogo cognitivo
Quem é: Pesquisador que aplica psicologia cognitiva ao estudo das religiões.
O que ele mostrou: A oração se espalha porque algumas ideias religiosas “pega(m)” facilmente na mente humana — por exemplo, ideias sobre agentes invisíveis, como espíritos ou deuses.
Importante: Para Boyer, a forma como pensamos torna certas noções (e orações) cognitivamente naturais.
📌 Livro importante: Religion Explained
🧠 4. William James (1842–1910) — Psicólogo e filósofo
Quem foi: Um pionero da psicologia da religião.
O que ele disse: Experiências religiosas (inclusive orações profundas) são parte da experiência subjetiva humana — algo que pode trazer sentido, consolo ou transformação pessoal.
Importante: Em vez de debater se Deus existe, James estudou como as pessoas vivem a religião.
⚡ 5. Émile Durkheim (1858–1917) — Sociólogo
Quem foi: Pai da sociologia moderna.
O que ele disse: A oração é um ato social, que fortalece laços comunitários; não só uma conversa com o divino, mas também com a comunidade.
Importante: Para Durkheim, religião e preces criam e reforçam coesão social.
🔬 Perspectivas mais recentes
✦ Neuroteologia
Pesquisadores como Andrew Newberg estudaram o cérebro durante preces e meditação. Eles mostram que padrões neuronais mudam em estados de oração profunda — sugerindo que há uma base biológica na experiência espiritual.
✦ Psicologia evolutiva
Alguns pesquisadores veem a oração como um mecanismo adaptativo: confiar em algo além de si mesmo pode reduzir o estresse e aumentar a resiliência, o que ajuda a sobreviver em ambientes difíceis.
🧠 Síntese profunda
Quando pesquisadores procuram respostas para quem inventou a oração, ninguém encontra um inventor individual. Em vez disso, o que vemos é:
🔹 A oração como fenômeno emergente
Ela surge quando:
O humano percebe o mundo como incerto
Precisa de significado, controle emocional e conexão
Desenvolve símbolos e linguagem complexa
Compartilha isso socialmente
🔹 A oração como:
estrutura simbólica (Lévi-Strauss),
experiência do sagrado (Eliade),
produto cognitivo natural (Boyer),
ritual social (Durkheim),
experiência psicológica profunda (James),
evento neurobiológico (Newberg).
📌 Conclusão
Não existe um “inventor da oração”.
A prece é um traço profundamente humano, resultado de:
✔ capacidades cognitivas
✔ necessidade de sentido
✔ experiências emocionais intensas
✔ vida social comunitária
✔ interpretação do que é sagrado
Cite exemplos de peças teatrais nas quais as orações aparecem de maneira significativa.
Excelente pergunta — porque no teatro a oração não aparece apenas como gesto religioso, mas como ato dramático extremo: súplica, culpa, delírio, resistência, silêncio de Deus.
Vou citar exemplos em que a oração tem função estrutural na peça.
1. Hamlet — William Shakespeare
A cena em que o rei Cláudio tenta rezar (“My words fly up, my thoughts remain below…”) é central.
Ele tenta orar para obter perdão pelo assassinato do irmão — mas percebe que não pode se arrepender enquanto mantém o poder obtido pelo crime.
👉 Aqui a oração revela:
culpa insolúvel
falência moral
impossibilidade de redenção
É uma oração que fracassa — e o fracasso move a tragédia.
2. Murder in the Cathedral — T. S. Eliot
Peça sobre o martírio de Thomas Becket.
As orações e cantos do coro são estruturais. O arcebispo precisa discernir se aceita o martírio por fé ou por orgulho espiritual.
👉 A oração aqui é:
combate interior
purificação da intenção
preparação para a morte
Ela molda a ação e o destino.
3. Les Mouches — Jean-Paul Sartre
Inspirada na Orestéia.
A cidade vive sob culpa coletiva e rituais religiosos opressivos. As preces são usadas como instrumento de dominação.
👉 Aqui a oração aparece como:
mecanismo de controle social
teatro da culpa
falsa transcendência
Sartre subverte o sentido tradicional da oração.
4. A Streetcar Named Desire — Tennessee Williams
Blanche faz apelos e quase-preces em momentos de colapso psicológico. Não são orações litúrgicas, mas invocações desesperadas.
👉 A oração aparece como:
pedido de salvação emocional
tentativa de manter dignidade
grito no vazio
É uma oração existencial.
5. O Pagador de Promessas — Dias Gomes
Aqui a oração é literal e concreta: Zé do Burro faz uma promessa religiosa e carrega uma cruz para pagá-la.
👉 A oração torna-se:
contrato com o sagrado
conflito entre fé popular e instituição religiosa
motor da tragédia
A promessa é oração dramatizada.
6. Waiting for Godot — Samuel Beckett
Há momentos de referência à oração e ao arrependimento (especialmente na discussão sobre os dois ladrões crucificados).
Mas o essencial é o silêncio: Deus (ou Godot) nunca chega.
👉 Aqui a oração é:
expectativa frustrada
ausência de resposta
metáfora do vazio metafísico
7. The Crucible — Arthur Miller
Durante os julgamentos das bruxas de Salem, orações são usadas como prova de pureza espiritual.
👉 A oração se torna:
instrumento de julgamento
teste moral
arma política
Ela decide quem vive e quem morre.
Observação mais profunda
No teatro, a oração costuma aparecer em três formas:
Súplica autêntica (Eliot, Dias Gomes)
Oração impossível ou fracassada (Shakespeare, Beckett)
Oração manipulada socialmente (Sartre, Miller)
Dramaturgicamente, a oração é poderosa porque:
é um monólogo dirigido ao invisível
revela interioridade extrema
coloca o personagem diante do absoluto
expõe conflito moral sem mediação
Ela funciona quase como um solilóquio radical — mas com Deus como interlocutor.
Se você quiser, posso aprofundar a análise estética de uma dessas peças ou relacionar oração e teatro com sua pesquisa sobre arte e instalação.
Há exemplos na Tragédia Grega?
Sim — e na tragédia grega a oração é absolutamente estrutural.
Ela não é decorativa: é ato público, político, ritual e metafísico ao mesmo tempo.
Vou citar exemplos centrais.
1. Édipo Rei — Sófocles
Logo na abertura, o povo de Tebas está reunido diante do palácio em atitude de súplica ritual.
Eles pedem a Édipo que interceda junto aos deuses para cessar a peste.
Aqui temos algo muito importante na cultura grega:
a hiketía (súplica ritual).
👉 Elementos centrais:
ramos de oliveira como símbolo de pedido
apelo público aos deuses
oração como ação política
A cidade ora porque está doente — e a resposta divina vem como revelação trágica.
A oração inicia a tragédia.
2. As Troianas — Eurípides
Após a queda de Troia, as mulheres derrotadas elevam lamentos que são também orações.
Mas são orações que não obtêm resposta.
👉 Aqui a prece se transforma em:
lamento cósmico
denúncia contra os deuses
questionamento da justiça divina
Eurípides radicaliza: ele mostra a oração diante do absurdo da guerra.
3. As Eumênides — Ésquilo
Orestes, perseguido pelas Fúrias, busca refúgio no templo de Apolo.
Ele se agarra ao altar — gesto clássico de súplica.
👉 A oração aqui:
ativa proteção sagrada
coloca deuses em conflito
inicia a transformação da vingança em justiça institucional
A súplica provoca uma mudança histórica: do ciclo de sangue ao tribunal.
4. Hipólito — Eurípides
Hipólito é devoto de Ártemis e despreza Afrodite.
Suas orações revelam exclusividade e pureza — e justamente por isso provocam a vingança da deusa rejeitada.
👉 A oração aqui:
revela excesso (hybris religiosa)
cria conflito divino
desencadeia destruição
5. Agamêmnon — Ésquilo
O coro relembra o momento em que Agamêmnon deve sacrificar Ifigênia para que os ventos soprem.
Há preces contraditórias: pedir vitória implica pedir morte.
👉 Aqui a oração:
expõe dilema moral insolúvel
mostra que os deuses não oferecem saída limpa
revela a violência estrutural do destino
O papel da oração na Tragédia Grega
Na cultura grega antiga, oração não era apenas devoção interior. Era:
1. Ato jurídico-religioso
Quem suplica sob proteção de um altar entra num campo sagrado.
2. Ato político
A cidade ora coletivamente (como em Édipo Rei).
3. Dispositivo dramático
A prece:
inicia ação
provoca resposta divina
revela falha humana
evidencia silêncio dos deuses
Algo ainda mais profundo
Diferente da tradição cristã posterior, na tragédia grega a oração:
não garante consolo
não promete redenção
não assegura justiça
Ela expõe o humano diante do moira (destino), do limite.
Muitas vezes, a oração revela que:
o divino é poderoso, mas não necessariamente benevolente.
Ou, em Eurípides, que talvez nem seja justo.
Por que você não citou Oração Para Um Pé De Chinelo, do Plínio Marcos?
Excelente observação. Você tem razão em lembrar.
Oração para um Pé de Chinelo — Plínio Marcos**
Eu não citei porque, na resposta anterior, foquei exclusivamente na tragédia grega — mas sua lembrança é muito pertinente, porque nessa peça a oração aparece de maneira brutalmente deslocada do sagrado tradicional.
E isso é importantíssimo.
O que acontece nessa peça?
A “oração” não é uma prece litúrgica formal.
Ela surge num ambiente de marginalidade, violência e exclusão social.
O título já é irônico:
“Pé de chinelo” = sujeito sem status, desprezado, marginal.
“Oração” = linguagem do sagrado.
Plínio Marcos funde essas duas dimensões.
O que essa oração faz dramaturgicamente?
Ela:
Não é dirigida a um Deus claramente definido.
Não pede redenção metafísica.
Não busca transcendência clássica.
Ela funciona como:
1. Grito de sobrevivência
É quase uma oração laica, um clamor por dignidade.
2. Sacralização do marginal
O autor desloca o sagrado para o submundo urbano.
3. Paródia amarga da linguagem religiosa
Há ecos de ladainha, mas impregnados de violência e desespero.
Comparação interessante
Se em Édipo Rei a cidade ora diante da peste,
em Oração para um Pé de Chinelo o personagem ora diante da exclusão social.
Mas há uma diferença crucial:
Na tragédia grega, o divino ainda estrutura o cosmos.
Em Plínio Marcos, o mundo parece abandonado — a oração ecoa num espaço sem garantia de resposta.
Isso aproxima a peça, em certo sentido, do vazio de Waiting for Godot.
Por que essa peça é tão significativa nesse debate?
Porque ela mostra algo fundamental:
A oração não precisa de templo.
Ela emerge onde há limite, desespero e consciência da própria precariedade.
Plínio Marcos transforma a oração em:
denúncia social
ato poético de resistência
último recurso simbólico de quem não tem poder

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