Pseudocultura nas Praças: O Palco Eleitoral Disfarçado de Arte.
Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais comum observar prefeituras brasileiras investindo vultosas quantias em grandes eventos musicais e festivais “populares” em praças centrais, com a justificativa de “promover cultura”. Contudo, por trás dos holofotes, percebe-se um fenômeno que pouco tem a ver com cultura no sentido pleno: trata-se de uma pseudocultura — um produto fabricado sob medida para gerar aglomeração, consumo e, principalmente, capital político.
A fabricação da cultura como produto
Essa estratégia se baseia em conceitos conhecidos como fabricação cultural e cultura de massa: selecionar conteúdos de apelo fácil, geralmente musicais ou gastronômicos, moldados para agradar o maior número possível de pessoas, perturbando o sossego dos moradores, sem qualquer compromisso com diversidade estética, preservação de tradições ou incentivo à criação artística local. Assim, a cultura deixa de ser expressão crítica e identidade coletiva para tornar-se mero produto de consumo imediato.
Pão, circo e palanque
Sob o pretexto de oferecer lazer, as prefeituras transformam praças em arenas de “pão e circo”, onde a programação se torna, na prática, um projeto de palanque. O público — atraído por shows patrocinados, barracas e brindes — fornece a plateia perfeita para discursos políticos disfarçados de agradecimentos protocolares. Essas festas, convenientemente realizadas em anos eleitorais ou próximos a datas comemorativas, funcionam como vitrines para gestores e pré-candidatos, usando a cultura como adereço.
O custo oculto
Enquanto milhões são destinados a eventos pontuais, centros culturais de bairro — que poderiam oferecer cursos, oficinas, bibliotecas e apresentações de grupos locais — permanecem com verbas irrisórias, infraestrutura precária e agenda rarefeita. O resultado é a concentração de recursos em ações efêmeras, que se esgotam em poucas horas, ao invés de investir em políticas de base que formariam público e artistas ao longo do tempo.
O efeito no tecido social
A pseudocultura empobrece o repertório cultural da população. Ao invés de provocar reflexão, estimular a produção artística ou resgatar memórias coletivas, ela condiciona o cidadão a associar cultura a eventos massivos, patrocinados pelo poder público, e quase sempre ligados à figura de um gestor. É uma política que privilegia o espetáculo sobre a substância, a imagem sobre o conteúdo.
O caminho da verdadeira ação cultural
O fortalecimento dos centros culturais de bairro, a promoção de editais transparentes, o apoio a grupos e artistas independentes e a descentralização da programação são caminhos para romper esse ciclo. Cultura verdadeira não é apenas reunir gente, mas criar condições para que a comunidade se reconheça, se expresse e se desenvolva por meio da arte.

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