terça-feira, 30 de setembro de 2025

Entre A Tragédia E A Mercadoria: A Favela Como Solução Deliberada No Brasil.

 


Entre A Tragédia E A Mercadoria: A Favela Como Solução Deliberada No Brasil.

Resumo

Este artigo analisa criticamente a recente tendência discursiva que transforma a favela de problema social em “solução potencial”, conforme veiculado por órgãos estatais e amplificado pela grande mídia. Argumenta-se que tal operação simbólica não se limita a uma disputa de narrativas, mas constitui um projeto deliberado de manutenção do povo em estado de embrutecimento, a fim de garantir lucros políticos, eleitorais e culturais. A insalubridade concreta da favela — marcada por barulho, sujeira, precariedade, violência difusa e ausência de direitos — é negada em nome da “Cultura Favela”, que vem sendo promovida como modelo cultural nacional, operando a favelização da vida brasileira.


Introdução

Historicamente, a favela foi tratada como um problema de política habitacional, saneamento e segurança. Contudo, o discurso oficial contemporâneo, reforçado por pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), passa a apresentá-la não mais como obstáculo, mas como “solução potencial” para o desenvolvimento social. Este deslocamento não é neutro: significa legitimar a precariedade como horizonte possível e transformá-la em mercadoria simbólica e política.


A Favela Concreta: Insalubridade e Opressão

A romantização das favelas contrasta com a experiência cotidiana dos moradores trabalhadores. O espaço urbano da favela é atravessado por problemas estruturais:

  • Barulho contínuo de pancadões, motocicletas e alto-falantes, que anulam o direito ao descanso e ao silêncio;

  • Sujeira e degradação ambiental, com esgoto a céu aberto, lixo acumulado e ausência de manutenção pública;

  • Pichações e marcas territoriais, que transformam a paisagem em registro da ausência de ordem pública;

  • Circulação de “bolinhos” de usuários de drogas em esquinas e vielas, criando atmosferas de medo e desconfiança;

  • Imposição violenta de estilos de vida que impedem a livre manifestação de insatisfação: o trabalhador não pode reclamar sem ser alvo de represália social ou física.

Trata-se, portanto, de um espaço de insalubridade planejada, em que o sofrimento é naturalizado e convertido em espetáculo cultural.


O Lucro Político da Tragédia

Por detrás das favelas, há uma rede de interesses políticos e econômicos. A precariedade urbana alimenta um ciclo de dependência:

  • Políticos e governos faturam com a administração da miséria, mantendo clientelas eleitorais cativas;

  • ONGs e entidades “sociais” captam recursos vultosos em nome da favela, mas atuam como meros intermediários financeiros;

  • Empresas e a grande mídia lucram com a estetização da pobreza, transformando sofrimento em narrativa publicitária e produto cultural.

A favela, assim, deixa de ser problema a ser superado e torna-se fonte inesgotável de capital simbólico e material para as elites que dela extraem lucro.


Cultura Favela: O Projeto de Favelização Nacional

A difusão da Cultura Favela constitui o eixo central deste processo. Mais do que retratar a realidade das periferias, trata-se de impor um padrão cultural hegemônico, que naturaliza a precariedade e glorifica comportamentos “over”, marcados pela ostentação ruidosa, pela desresponsabilização individual e pela recusa a qualquer avanço intelectual consequente.

Ao transformar a favela em “marca nacional”, dissemina-se a lógica da favelização da vida, na qual a população é condicionada a aceitar barulho, sujeira, desorganização e embrutecimento como elementos de identidade. A cultura, em vez de horizonte emancipatório, converte-se em dispositivo de opressão.


O Papel da Grande Mídia

Não se trata de falha política ou omissão estatal. O projeto é deliberado e tem como principal veículo a grande mídia, que vende a favela como espaço de criatividade, resistência e autenticidade, enquanto silencia sobre sua insalubridade objetiva. Este duplo discurso — romantização para consumo externo e ocultamento da miséria real — mantém o povo em estado de bestialização social, como denunciava Euclides da Cunha ao observar a manipulação das massas.


Conclusão

A elevação da favela à condição de “solução” revela um processo de inversão ideológica que transforma tragédia em mercadoria. O sofrimento diário do trabalhador é instrumentalizado por políticos, empresas e mídia, ao passo que a Cultura Favela cumpre a função de modelar subjetividades, anestesiando a capacidade crítica da população. Não se trata de erro, mas de estratégia. A favelização deliberada do Brasil é o instrumento pelo qual se garante a manutenção de uma sociedade embrutecida e facilmente manipulável.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A Oração (Prece, Reza) No Teatro.

A Oração (Prece, Reza) No Teatro. Quem inventou a oração, a prece, a reza? A oração não foi “inventada” por uma única pessoa. Ela surgiu de ...