sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Posso, Poema de Maurício Menossi Flores, Com Análise da Inteligência Artificial.

 


Posso


(Em processo, sem revisão.)

Posso, simplesmente,
Negar o trago,
Dizendo ser cedo
Para começar
A ingerir álcool.
Pois, de fato,
Não é o meu hábito.
Caso insista, devo advertir
Ter, ainda, naquele dia,
Muito trabalho.
O que não é mentira:
Lamento, todos os dias,
O desperdício
De não ler mais livros
E, por estilo,
Ter saltado tantas linhas
Nos meus manuscritos.
Sabedor do ChatGPT4
Interpretar isso
Como ritmo,
Direi somente,
Por instinto, sinto.
Bem próximo a mim,
O espírito de Leah Fox,
O Elo Perdido do Espiritualismo,
Cobra ingressos
Em uma sessão mediúnica.
Os menos favorecidos,
Os desprovidos de dinheiro,
Também são bem-vindos.
Se hoje, no Brasil,
A moda é o Pix,
Com o Drex ameaçando
Nossa privacidade e liberdade,
Lá, nos Estados Unidos,
O dólar vai bem, obrigado.
As lâmpadas verdes
Da luminária, por mim confeccionada,
Parecem favorecer
Meus olhos cansados.
Vez ou outra, consulto o dicionário
Certificando-me da correta grafia
Dos vocábulos.
Em certo livro do Chico,
Zenóbia, alma nobre,
Faz comovedora prece,
A fim de, em tela de gaze,
Manifestarem-se
Superiores entidades.
Em outra passagem,
Da mesma obra,
Crianças iluminadas
Conduzem suas mães
Para, durante o sono,
Serem confortadas
Da perda dos petizes,
Preciosidades desencarnadas
Em tenra idade.
Voltando ao caso
Dos planos do meu amigo
De, logo cedo,
Embriagar-se,
Devo esclarecer,
Fazendo minhas as falas
Do Dr. Fructuoso,
Ser eu atualmente
Embalado pela necessidade urgente
De, mais rapidamente,
Evoluir e me tornar
Pessoa de fino trato.
Cuspo no pia
O rapé inalado,
Tomo um copo d'água,
E vou deitar-me.

(Mameflo)

Análise Sintática

O poema Posso apresenta um encadeamento frasal não linear, os períodos são curtos, justapostos ou coordenados, muitas vezes quebrados pela vírgula ou pelo enjambement (quebra de verso que prolonga a sintaxe).

  1. Predomínio da primeira pessoa: o sujeito lírico se afirma e se define pelas ações que recusa ou admite — “Posso, simplesmente, / Negar o trago...”, “Cuspo no pia... / Tomo um copo d’água, / E vou deitar-me.”

    • Isso confere autoridade íntima, mas também hesitação, porque as justificativas se multiplicam em orações subordinadas.

  2. Orações subordinadas explicativas e adverbiais:

    • “Pois, de fato, / Não é o meu hábito.”

    • “Caso insista, devo advertir / Ter, ainda, naquele dia, / Muito trabalho.”

    • “Lamento, todos os dias, / O desperdício / De não ler mais livros...”
      Essas estruturas alongam a frase, criando uma cadência discursiva mais próxima da prosa que da poesia lírica tradicional.

  3. Sintaxe oscilante entre oralidade e erudição:

    • Oralidade: “O dólar vai bem, obrigado.”, “Cuspo no pia...”.

    • Erudição: “Em tela de gaze, / Manifestarem-se / Superiores entidades.”
      Essa mescla gera tensão entre o registro coloquial e o culto.

  4. Repetição de conectores e de partículas modais: “Pois”, “Caso”, “O que não é mentira”, “Bem próximo a mim”, “Voltando ao caso...”.

    • Produzem efeito de conversa digressiva, de texto falado que salta de um tema a outro, mas preserva certa lógica.


🔹 Análise Estética

  1. Tema central deslocado: o poema parte de um gesto banal (recusar bebida) e expande para digressões espirituais, sociais e literárias.

    • Essa fuga contínua revela uma estética da distração criativa, em que o trivial leva ao metafísico.

  2. Imagens contrastantes:

    • Cotidiano: “Cuspo no pia”, “Tomo um copo d’água”.

    • Espiritual: “O espírito de Leah Fox”, “Crianças iluminadas / conduzem suas mães”.

    • Político-econômico: “Pix”, “Drex”, “O dólar vai bem, obrigado.”
      → Estética do colagem (quase surreal), onde planos diferentes coexistem sem hierarquia rígida.

  3. Referências intertextuais:

    • ChatGPT4, Chico Xavier, Leah Fox, Dr. Fructuoso → o poema se constrói como rede de vozes.

    • Lembra procedimentos pós-modernos (polifonia, justaposição cultural).

    • Mas também ecos do modernismo brasileiro, pelo tom de diário íntimo e reflexivo (penso em Mário de Andrade em Pauliceia Desvairada, ou até em Drummond na fase mais prosaica).

  4. Ritmo:

    • Não há métrica regular.

    • Os cortes de verso funcionam mais como pausas respiratórias e como recurso de ênfase (enjambement).

    • Exemplo:

      Lamento, todos os dias,
      O desperdício
      De não ler mais livros

      → O ritmo imita a cadência de um pensamento falado.

  5. Estilo:

    • Confessional e meditativo, mas permeado de ironia (recusar bebida vira pretexto para reflexões existenciais).

    • Estética da enumeração/digressão: vários blocos que poderiam ser autônomos, mas se encadeiam pelo fio da consciência do eu lírico.

    • Final humilde e corporal: “Cuspo no pia... vou deitar-me.”
      → Queda abrupta do espiritual ao físico, marca de ironia e desencanto.


🔹 Síntese interpretativa

O poema, sintaticamente, tem a forma de uma prosa poética fraturada, em que a pontuação e os cortes de verso simulam o fluxo de pensamento de alguém que recusa o álcool, mas se embriaga de referências culturais, espirituais e cotidianas.

Esteticamente, a peça revela uma poética de colagem e digressão, unindo banalidade e transcendência, cotidiano e espiritualismo, erudição e coloquialidade. O resultado é uma espécie de diário-poema filosófico, em que a vida prática (o trago recusado, o copo d’água, o dicionário) se cruza com inquietações maiores (literatura, espiritualismo, tecnologia, política monetária).







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