O Médium
Boêmio
Joaquim Barbosa andava de bar em bar. De cidade em cidade.
Era caixeiro-viajante e comercializava cachaça da boa. Gostando de consumir o
produto, não sendo escravo do vício. Seu prazer era, no entardecer, ao invés de
regar a plantação de alho, como fazia Chico Xavier, ir tomar três ou quatro
doses, bem demoradas, antes de dormir. Isso garantia uma prosa camarada e o
relaxamento necessário para o sono reparador.
Afeito ao Espiritismo, mesmo não frequentando, lia com gozo
os livros comprados na banquinha da praça da sua cidade. Pelo menos, um por
mês...
Foi quando, de repente, entre um trago e outro, viu-se dando
conselhos espirituais. Vá lá, não é de bom alvitre dar “consulta” chapado.
Nenhum espírita de verdade faria isso. Porém, meio de brincadeira, respaldava-se
na Revista Espírita, de Kardec. Nessa leu terem recepcionado o criador da
Doutrina, em certa cidade francesa, com vinho. E vai dizer que não rolaram umas
mensagens depois da comemoração? O Espiritismo não é moralista. O certo, para
ele, o Espiritismo, está na elevação espiritual atrelada à conduta reta,
valorizando a Caridade.
Viu-se no enrosco de prescrever receitas para as
enfermidades. Tudo bem, eram generalidades inofensivas. Tomar chás caseiros,
respirar com consciência, comer de tudo, com moderação e regramento de horários
e não exagerar nas drogas lícitas e ilícitas. Seria preferível evitá-las.
Aconteceu, então, nesses dias, uma mulher ter-lhe procurado,
reclamando de câncer, já em estado avançado.
Joaquim Barbosa, entre um trago e outro, impôs as mãos na cabeça da
mulher (lugar onde se localizava o tumor) e conduziu exercício de respiração,
aprendido na prática do yoga, quando jovem. A mulher recuperou-se, sabe-se lá o
porquê. Talvez pelo excelente tratamento médico que recebia em um dos melhores
hospitais do país.
Tudo estaria bem se não fosse o seguinte...
O caixeiro-viajante havia prometido para a namorada dele um
apartamento. A mulher o aturava fazia anos. Gostava do comerciante, apesar de,
vez ou outra, aparecer mais bêbado que de costume e roncar demais quando
dormia. Sendo assim, ele sentia-se na obrigação de, pelo menos, garantir um
pouco mais de conforto para ela, pois esfolava-se como professora para pagar aluguel.
A senhora curada, muito agradecida, ofereceu o tal
apartamento almejado para o vendedor. Era muito rica e isso, não
seria nada demais, diante da suposta cura patrocinada pela mediunidade de
Joaquim.
Ele sabia ser errado aceitar a doação. O certo seria
recomendar uma instituição de caridade séria para receber a oferta. Chegou a
pesquisar algumas e conversar sobre isso com a senhora satisfeita com a nova
vida a partir da cura.
Foi aí que teve aquele sonho...
Sonhou que a sua casa estava conectada a uma outra residência
que tinha em cidade onde é mais comum vender o seu produto. Na vida real, vivia
revezando entre uma e outra, além do apartamento alugado da namorada. Qual o
significado disso? Teria algo a ver com a doação ofertada?
Depois de muito refletir, concluiu ter entendido o enigma. Na
verdade, o seu cérebro estava tentando conectar ele com ele mesmo, mostrando, em
simbologia, a mente dele estar dividida. Acreditou tanto na sua “brisa de
médium curador”, a ponto de esquecer de ter avisado à senhora, supostamente
beneficiada com a cura do câncer, ser tudo aquilo uma simulação, um teatro. Assim,
não precisaria recusar a oferta!
Quando no bar bebia, na noite seguinte ao sonho intrigante, depois do expediente,
como sempre, apareceu a tal senhora perguntando se ficaria com o apartamento. Ele
contou-lhe o sonho, a fim de explicar a decisão tomada. Não sendo médium de verdade e apenas sendo simpatizante
do Espiritismo, poderia, sim, aceitar a oferta, já que isso não lesaria ou
enganaria ninguém. A mulher ficou bastante satisfeita com a resposta. Sentiu-se
mais agradecida ainda. Acreditou porque quis, nunca fora induzida a nada.
O médium resolveu restringir-se às
leituras espíritas. Continuou tomando umas e outras, sem tocar em assunto de
Espiritismo e de cura com mais ninguém. Sua namorada agradeceu demais o sonho
realizado.
Em processo, sem revisão.
(Nina Ferraz, psicografia de Maurício Menossi Flores)

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