quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

"Iê - A Guerra do Paraguai, a Capoeira e os Zuavos Baianos" - Monólogo Teatral.

 






















Desenhos de Maurício Menossi Flores


IÊ - A Guerra do Paraguai, a Capoeira e os
Zuavos Baianos – Texto do Monólogo Teatral

(em processo, sem revisão)


Entra com uma mochila cantando e tocando berimbau. Está em uma feira, em uma praça pública, etc.
“Colegas, eu vou contar...
Colegas, eu vou contar
O que me aconteceu.
Entrei na volta do mundo,
Quem ficou surpreso fui eu.
Conheci a capoeira,
Não pensei que fosse tão rico
O universo dessa nossa dança guerreira!
Iê, iê.
Ginga pra cá e pela barra afora vamos gingar,
Iê, iê.
Ginga pra cá e na volta do mundo vamos jogar.
Iê, iê.
Ginga pra cá e pela barra afora vamos gingar.
Iê, iê.
Ginga pra cá e na volta do mundo vamos jogar.
Chega pra cá, chega prá cá, a história vamos revisitar! Fiz bem em vir para cá. Este lugar é bonito mesmo! Só me desagradou um fogo no mato ali perto da entrada da cidade... Fogo não me traz boa recordação. Como é que pode, algo tão bonito e tão destrutivo?”
Coloca a mochila no centro do palco. Retira dela uma cabaça, um chocalho e um chifre. Coloca os objetos formando um quadrado com a mochila no centro, pois o berimbau forma um dos vértices.
“Opa! Escorregar não é cair! (Desequilibrando-se, agachado, com cabaça no joelho e atirando com chifre na mesma, como se fosse um inimigo.)”
Levanta. Com o chifre na mão, esculpindo-o com pequena faca.
“- O que estou fazendo? Tenha paciência, você já vai saber...” (dirigindo-se a interlocutor suposto.)
Olhando como ficou isso aqui, sabem do que lembrei agora? De acampamento na Guerra do Paraguai!”
Esculpe chifre de boi, com parcimônia.
“- Por que eu sou negão? É, eu fui combatente da companhia dos zuavos baianos... (Sendo interpelado por interlocutor provável.)
- Se eu vivo de contar história? Não, não... (Para outro interlocutor provável.)
Eu era próximo a Cândido Fonseca Galvão, futuro Dom Obá II. Fiz amizade com ele no tempo que conheci Izaíra, o motivo de meu sofrer. É uma dor na alma e só aumenta.” (Fazendo gesto com chifre denotando ereção)
Ao embarcar em Salvador, a fim de começar minha jornada rumo a Curupaiti, juramos amor eterno. Nada iria nos separar!
Meu uniforme estava impecável, como ainda tenho um guardado. Os meus originais perderam-se em batalhas, mas depois comprei um, daqueles mascates que acompanhavam os exércitos, carregando toda a família junto. Lembro-me dela dizendo jamais esquecê-lo. Houvesse o que houvesse!
Izaíra voltou para casa e cuidou de seus afazeres. Chorou bastante naquela noite e nas demais como soube pelas cartas que me enviava. Na verdade, não sei se, como eu, ainda chora. No meu caso, são lágrimas de crocodilo, em parte! Mas, mesmo assim, doem antes do sorriso de louco dizendo-me mentalmente estar contente.
Éramos da 2ª Companhia de Zuavos Baianos, de não muito mais de 80 homens. Recebíamos ordens do tenente Marcolino José Dias.
- Tu és parente dele? Neto? Olha como é que pode! Mundo pequeno! Onde vim encontrar um descendente direto do meu comandante! ” (Para interlocutor provável.). (Sente fisgada na perna.)
Onde coloquei meu remédio? (Revirando a mochila.)
A apreensão era grande. Não sabíamos quando se daria a batalha decisiva.
Tinha dificuldades em dormir com duas preocupações básicas: pensar no bem-estar de Izaíra e em ataques surpresa dos paraguaios.
Não havia certeza do apoio dos uruguaios. Mas os argentinos estavam ali, firmes e fortes!
O cansaço começava a dominar o corpo e a mente. Animavam-me as cartas de Izaíra. Da minha parte, eu escrevia coisas assim:
‘(...) jurando pelas dores da Maria Santíssima e pelas cinzas de meu Pai, que me hei de casar contigo em breve; para o que será necessariamente preciso sair daqui (...) preciso saber se me amas e muito; porque se assim for, isto é, se o teu amor for verdadeiro, tenho certeza de que desprezarás todas as quimeras do mundo, e considerarás como tua única felicidade a companhia e amizade daquele que amas. ‘
Nosso comandante, para piorar um pouco as coisas, exigia ao menos um exercício diário do jogo da capoeira, o que nos distinguia.
‘- Acabou a mamata, todos em roda, vamos começar! (Protagonista imita a voz do imaginado comandante.)
- Sim senhor! (Batendo continência.)
- Não bata continência, imbecil!’ Quer que eu perca o meu pescoço?
Esses exercícios foram de grande valia para escapar de soldados inimigos que me cercaram durante a fatídica batalha de Curupaiti, no dia 22 de setembro 1866. Esta data está marcada a ferro em minha memória! Tentamos invadir o forte pelo flanco que julgávamos menos defensável, o da direita, mas depois vimos que, melhor mesmo, seria pela esquerda. Por desconhecimento do terreno, quase fomos mortos quando nos atolamos em um brejo infestado por mosquitos e, de certo, propício aos micróbios da cólera. Mas conseguimos passar. Fomos até saudados pela valente Maria Curupaiti, como ficou conhecida aquela mulher brava da peste, que se vestiu de homem para acompanhar o marido na guerra. Havia, ainda, os abatizes, o fosso e os parapeitos. Vencidos estes, fomos encurralados. O jeito foi abrir caminho com nossas armas brancas e golpes de capoeira. Soldados me agarraram e tentaram me arrastar. Foi, quando em um descuido deles, desvencilhe-me. Dei cabeçada no mais forte, martelo rodado no outro e rasteira no mais alto. Livre, embrenhei-me no mato gravemente ferido por baioneta. Mesmo assim, sentia o gosto da vitória e, feliz, recordei-me do embarque em Salvador, quando cantávamos o hino dos zuavos baianos, composto por um poeta popular. Lembro-me de algumas estrofes:
‘Sou crioulo: da guerra na crisma
Por zuavo o meu nome troquei
Tenho sede de sangue inimigo
Por bebê-lo o meu sangue darei
D’Henrique Dias
Neto esforçado
Voo ao teu brado
Pátria gentil!
Mais que o da França
Ligeiro e bravo
Seja o zuavo
Cá do Brasil...’
Que tragédia! Fomos derrotados humilhantemente. Era o fim dos zuavos baianos. O forte paraguaio só seria tomado dois anos depois. Mesmo assim, não foi tudo agonia. Terem alguns escapados vivos foi uma glória...
Carrego comigo três mimos que me ajudam a lembrar daqueles tempos. Um é o abanador. Foi bastante útil para espantar os mosquitos irritantes, quando ficava de sentinela em uma árvore perto do rio, em um galho em cima da estrada. Era até possível de confundir com uma folha seca. Se aparecesse algum inimigo, desgarrado de alguma patrulha, comia solto o voo do morcego. Dava uma rasteira, dominava o famigerado, tirava as armas e levava para o acampamento para arrancar informações! Este aqui fiz para minha filha que tenho com Piedade, que logo completa mais um ano de vida!
Tem esse retrato aqui... (Fazendo som de repique de caixa clara.) Nele estou bem mais jovem! Observem como o uniforme inspirado nos zuavos franceses:
‘...largas bombachas vermelhas presas por polainas que chegam à curva da perna, jaqueta azul, aberta, com bordados de trança amarela, guarda-peito do mesmo pano, o pescoço limpo sem colarinho nem gravata e um fez na cabeça. ‘
Agora, vejam: uma boneca obayomi! Ela é feita de pano e só com nós. Quem me ensinou a fazer foi minha avó, que aprendeu com as tias dela, sentadas diante da boca do fogão de lenha. Conta-se que as mulheres escravizadas faziam para suas filhas durante a viagem da África até o Brasil. Penso nas filhas que teria com Izaíra...”
Canta e dança, com movimentos de capoeira.
“’O som do tambor ao sabor do vento ecoou,
Mensagem ao longe escutou.
Naná manda mensagem a Ogum dilê:
Durante o conflito, dê proteção aos erês.’ (Sente fisgada na perna.)
Onde coloquei a peste do remédio...? (Revirando a mochila.)
Depois da batalha, não ouvíamos mais os terríveis tuturutus, instrumento feito com chifre de boi.
Os paraguaios vinham ao campo de batalha, em busca de armas e dos despojos dos que ficaram tombados. Crianças, lideradas por um médico, degolavam os feridos, ou esmagavam suas cabeças com porretes.
Foi quando vi Piedade pela primeira vez. Ela me socorreu, mesmo sendo inimigo. Embrulhou-me em um cobertor, apanhado por ali, escondendo-me dos soldados paraguaios, e me levou até o riacho para limpar minhas feridas. Alojou-me em um casebre abandonado no meio do mato. Confesso ter, a princípio, de dominar o instinto de macho soprando no meu ouvido ‘preciso ter essa mulher’. Com o tempo, passei a vê-la como ser humano. O pouco de espanhol paraguaio aprendido deu para iniciar conversa desenxabida, vertida, mais tarde, em profundo sentimento.
Cuidou de mim por dias e dias: ‘Por Nossa Senhora de Caacupê, estarei no céu? És um anjo...?’ (Fala em portunhol.)
Para mim, meu amor por Izaíra era ainda inabalável!
Mas as coisas começaram a se complicar! Passei a fazer promessas a Piedade de ficarmos juntos. Talvez por ter me prestado socorros. Ao mesmo tempo, não conseguia esquecer Izaíra. As cartas dela, passadas por meus companheiros, cessaram com o tempo.
Meus companheiros.... Quanta saudade! Não era incomum, quando tínhamos comida, estarmos em festa, nas quais cantávamos e dançávamos.
Dei baixa e fixei residência com Piedade ali mesmo, no Paraguai, onde, aliás, fora abolida a escravidão, em 1869, pelo Conde D’Eu.
Passei a viver do sagrado ofício de artesão, porque o governo me negou uma merecida pensão. Nem meus soldos atrasados pagaram!
- Se alguém estiver interessado em minhas peças, podem chegar mais. Tem utilitários, enfeites, brinquedos, instrumentos musicais... (Falando para os expectadores)
Quanto à Guerra do Paraguai, acreditei na visão de Quirino Antônio do Espírito Santo, ao criar os zuavos baianos, inspirado nas lutas de Independência e em Henrique Dias. Fui um voluntário da pátria!
E Izaíra? Não consigo me perdoar! Carregarei este pesadelo pela eternidade?
“Onde está essa bexiga de remédio?”
Remexe em suas coisas e encontra o frasco com a seringa.
“Ah, infeliz!”
Prepara uma dose e aplica-a no braço enquanto recita poema de Gregório de Matos, o Boca do Inferno.
‘São da dor os espaços sem medida,
E a medida das horas tão pequena,
Que não sei como a dor é tão crescida. ‘”
Muda para voz estranha com palavras meio inteligíveis.
“Oh, lelê. Essa merda vai feder.
Cuidado com os canhões!
Vamos destruir os inimigos!
Vamos acatar!
Granada! Granada!
Proteja os flancos!
Ta, tá, ta, tá, tá, taaaá! (Utilizando o chifre como se fosse uma corneta.).”
Age como se estivesse combatendo inimigos imaginários. Deita, exausto, e apanha a boneca abayomi. Dorme com a boneca sobre o peito. Acorda meio assustado, olhando para a boneca. Está calmo.
Levanta-se, guardando suas tralhas, apanha o berimbau e a mochila.
“Que via crúcis... Não vou incomodar mais com minhas dores...
Também teve momentos felizes!
Fiz uma ladainha e gostaria que me acompanhassem no coro. Vocês me ajudam? (Ensaiando o povo para o coro, guardando suas tralhas, apanha o berimbau e a mochila.)”
Sai cantando.
“Numa de minhas andanças...
Numa de minhas andanças,
Encontrei um velho griô.
Aos meus ouvidos atentos,
Na história confirmou.
Falou em Marcolino José Dias
E em Quirino Antônio do Espírito Santo.
Cândido Fonseca Galvão,
Codinome Dom Obá,
Também ele comentou.
Disse que participou dos zuavos...
Comentou com muita emoção,
Que a vida é rica e doce colmeia cheia de favos.
Trilhando esse caminho,
Mesmo longe das pessoas,
Não me sinto sozinho.
Iê, lê, lê.
Oeá, Oeá,
Comendo na folha da bananeira,
Vou gingando na volta do mundo,
Revisitando a história,
Vou jogando capoeira.
Oeá, Oeá,
Comendo na folha da bananeira,
Vou gingando na volta do mundo,
Revisitando a história,
Vou jogando capoeira.”
Volta descaracterizado, sem o chapéu, e cumprimenta a plateia.

FIM

Autores: José Faustino e Maurício Menossi Flores




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