terça-feira, 6 de setembro de 2022

"O Médium Boêmio". Conto e Fotorromance de Nina Ferraz, Psicografado Por Maurício Menossi Flores.



O Médium Boêmio

 

Joaquim Barbosa andava de bar em bar. De cidade em cidade. Era caixeiro-viajante e comercializava cachaça da boa. Gostando de consumir o produto, não sendo escravo do vício. Seu prazer era, no entardecer, ao invés de regar a plantação de alho, como fazia Chico Xavier, ir tomar três ou quatro doses, bem demoradas, antes de dormir. Isso garantia uma prosa camarada e o relaxamento necessário para o sono reparador.

Afeito ao Espiritismo, mesmo não frequentando, lia com gozo os livros comprados na banquinha da praça da sua cidade. Pelo menos, um por mês...

Foi quando, de repente, entre um trago e outro, viu-se dando conselhos espirituais. Vá lá, não é de bom alvitre dar “consulta” chapado. Nenhum espírita de verdade faria isso. Porém, meio de brincadeira, respaldava-se na Revista Espírita, de Kardec. Nessa leu terem recepcionado o criador da Doutrina, em certa cidade francesa, com vinho. E vai dizer que não rolaram umas mensagens depois da comemoração? O Espiritismo não é moralista. O certo, para ele, o Espiritismo, está na elevação espiritual atrelada à conduta reta, valorizando a Caridade.     

Viu-se no enrosco de prescrever receitas para as enfermidades. Tudo bem, eram generalidades inofensivas. Tomar chás caseiros, respirar com consciência, comer de tudo, com moderação e regramento de horários e não exagerar nas drogas lícitas e ilícitas. Seria preferível evitá-las.

Aconteceu, então, nesses dias, uma mulher ter-lhe procurado, reclamando de câncer, já em estado avançado.  Joaquim Barbosa, entre um trago e outro, impôs as mãos na cabeça da mulher (lugar onde se localizava o tumor) e conduziu exercício de respiração, aprendido na prática do yoga, quando jovem. A mulher recuperou-se, sabe-se lá o porquê. Talvez pelo excelente tratamento médico que recebia em um dos melhores hospitais do país.

Tudo estaria bem se não fosse o seguinte...

O caixeiro-viajante havia prometido para a namorada dele um apartamento. A mulher o aturava fazia anos. Gostava do comerciante, apesar de, vez ou outra, aparecer mais bêbado que de costume e roncar demais quando dormia. Sendo assim, ele sentia-se na obrigação de, pelo menos, garantir um pouco mais de conforto para ela, pois esfolava-se como professora para pagar aluguel.

A senhora curada, muito agradecida, ofereceu o tal apartamento almejado para o vendedor. Era muito rica e isso, não seria nada demais, diante da suposta cura patrocinada pela mediunidade de Joaquim.

Ele sabia ser errado aceitar a doação. O certo seria recomendar uma instituição de caridade séria para receber a oferta. Chegou a pesquisar algumas e conversar sobre isso com a senhora satisfeita com a nova vida a partir da cura.

Foi aí que teve aquele sonho...

Sonhou que a sua casa estava conectada a uma outra residência que tinha em cidade onde é mais comum vender o seu produto. Na vida real, vivia revezando entre uma e outra, além do apartamento alugado da namorada. Qual o significado disso? Teria algo a ver com a doação ofertada?

Depois de muito refletir, concluiu ter entendido o enigma. Na verdade, o seu cérebro estava tentando conectar ele com ele mesmo, mostrando, em simbologia, a mente dele estar dividida. Acreditou tanto na sua “brisa de médium curador”, a ponto de esquecer de ter avisado à senhora, supostamente beneficiada com a cura do câncer, ser tudo aquilo uma simulação, um teatro. Assim, não precisaria recusar a oferta!

Quando no bar bebia, na noite seguinte ao sonho intrigante, depois do expediente, como sempre, apareceu a tal senhora perguntando se ficaria com o apartamento. Ele contou-lhe o sonho, a fim de explicar a decisão tomada.  Não sendo médium de verdade e apenas sendo simpatizante do Espiritismo, poderia, sim, aceitar a oferta, já que isso não lesaria ou enganaria ninguém. A mulher ficou bastante satisfeita com a resposta. Sentiu-se mais agradecida ainda. Acreditou porque quis, nunca fora induzida a nada.  

O médium resolveu restringir-se às leituras espíritas. Continuou tomando umas e outras, sem tocar em assunto de Espiritismo e de cura com mais ninguém. Sua namorada agradeceu demais o sonho realizado.

Em processo, sem revisão.

 

(Nina Ferraz, psicografia de Maurício Menossi Flores)


 

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